Em Portugal, o Decreto-Lei n.º 83/2018 transpôs a Diretiva Europeia 2016/2102, tornando a acessibilidade web obrigatória para organismos do setor público. O setor privado tem obrigações próprias, para certos serviços, desde 28 de junho de 2025 (DL 82/2022), e com cerca de 15% da população portuguesa a viver com algum tipo de deficiência (dados do INE), ignorar a acessibilidade é excluir uma parte significativa de potenciais clientes — e perder vantagem no SEO.

O que diz a lei portuguesa sobre acessibilidade web

O DL 83/2018 aplica-se a:

  • Administração pública central, regional e local
  • Institutos públicos
  • Entidades públicas empresariais
  • Universidades públicas

Para estes organismos, a conformidade com as WCAG 2.1 nível AA é obrigatória. Devem também publicar uma declaração de acessibilidade no site e ter um mecanismo de feedback para utilizadores que encontrem barreiras.

E o setor privado? O Decreto-Lei n.º 82/2022, que transpõe a Diretiva Europeia de Acessibilidade (Diretiva (UE) 2019/882), produz efeitos desde 28 de junho de 2025 e abrange serviços de empresas privadas, incluindo comércio eletrónico, serviços bancários ao consumidor e comunicações eletrónicas. O diploma não cita as WCAG: remete os requisitos técnicos para portaria, e a referência técnica habitual para web é a EN 301 549, que aponta para as WCAG 2.1 nível AA. As microempresas que prestam estes serviços estão excluídas (artigo 2.º, n.º 5, alínea b); microempresa é a que tem menos de 10 pessoas e um volume de negócios ou balanço anual até 2 milhões de euros). Consulta o texto oficial no Diário da República e, para coimas e enquadramento, o nosso guia sobre a Lei da Acessibilidade.

Em resumo: se tens um site de comércio eletrónico ou um serviço digital e não és microempresa, o DL 82/2022 aplica-se-te.

O que são as WCAG e os quatro princípios básicos

As WCAG (Web Content Accessibility Guidelines) são as normas internacionais de acessibilidade web, publicadas pelo W3C. A versão atual relevante é a 2.1, com a 2.2 publicada em 2023 (ainda não obrigatória por lei).

As WCAG organizam-se em torno de quatro princípios — um site acessível deve ser:

1. Percetível: a informação deve ser apresentável de forma que todos os utilizadores a possam perceber. Exemplo: imagens com texto alternativo, legendas em vídeos, contraste de cor suficiente.

2. Operável: a interface deve ser utilizável por toda a gente. Exemplo: todas as funcionalidades devem estar acessíveis por teclado, sem dependência exclusiva do rato.

3. Compreensível: a informação e o funcionamento da interface devem ser compreensíveis. Exemplo: formulários com instruções claras, erros identificados com mensagens explícitas.

4. Robusto: o conteúdo deve ser interpretável por diferentes tecnologias assistivas (leitores de ecrã, etc.). Exemplo: HTML semântico e bem estruturado.

As verificações mais simples que podes fazer hoje

Não precisas de ser programador para fazer uma primeira avaliação de acessibilidade.

O que verificarComo verificarImpacto
Alt text nas imagensClica com o botão direito numa imagem > InspecionarAlto
Contraste de coresWebAIM Contrast Checker (webaim.org/resources/contrastchecker)Alto
Navegação por tecladoPressiona Tab e verifica se consegues navegar todo o siteAlto
Etiquetas de formuláriosVerifica se cada campo tem uma label visívelAlto
Estrutura de headingsUsa a extensão HeadingsMap no ChromeMédio
Tamanho mínimo de textoZoom no browser a 200% — o conteúdo mantém-se legível?Médio

Ferramenta WAVE

A ferramenta WAVE (wave.webaim.org) é gratuita e analisa qualquer página pública da web. Inseris o URL, e obtens um relatório visual com erros, alertas e estrutura da página. É o ponto de partida mais prático para uma primeira avaliação.

Extensão axe DevTools

A extensão axe (disponível para Chrome e Firefox) analisa a página atual e identifica violações WCAG. A versão gratuita cobre os problemas mais comuns. É usada por equipas de desenvolvimento para verificar acessibilidade durante o desenvolvimento.

Os problemas mais comuns em sites portugueses

Com base em auditorias de acessibilidade, os erros mais frequentes em sites de pequenas e médias empresas são:

Imagens sem alt text: qualquer utilizador de leitor de ecrã (como NVDA ou JAWS, usados por pessoas com deficiência visual) não consegue perceber o conteúdo das imagens sem alt text. É o erro mais comum e um dos mais fáceis de corrigir.

Contraste insuficiente: texto cinzento claro sobre fundo branco parece elegante, mas pode ser ilegível para pessoas com baixa visão ou daltonismo. O WCAG exige um rácio de contraste mínimo de 4,5:1 para texto normal.

Formulários sem etiquetas: campos de formulário sem <label> associado fazem com que utilizadores de leitores de ecrã não saibam o que está a ser pedido em cada campo.

Links “clica aqui”: links com texto genérico não comunicam destino a utilizadores que navegam por lista de links (técnica comum com leitores de ecrã). O texto do link deve descrever o destino.

Vídeos sem legendas: vídeos no site sem legendas excluem utilizadores com deficiência auditiva.

Acessibilidade e SEO: a ligação que poucos mencionam

Muitas das boas práticas de acessibilidade são também boas práticas de SEO:

  • Alt text em imagens: o Google usa-o para indexar imagens e perceber o contexto da página
  • Estrutura de headings (H1, H2, H3): ajuda tanto leitores de ecrã a navegar como o Google a perceber a hierarquia do conteúdo
  • HTML semântico: código mais limpo é mais fácil de rastrear para o Googlebot
  • Velocidade de carregamento: beneficia utilizadores com ligações mais lentas e utilizadores de tecnologias assistivas

Um site acessível não é apenas mais justo — tende a rankear melhor no Google e a converter melhor (mais clareza, melhor usabilidade para toda a gente).

Por onde começar se o teu site não é acessível

Não precisas de resolver tudo de uma vez. Uma abordagem progressiva:

  1. Corre o WAVE no teu site e corrige os erros críticos (vermelho) primeiro
  2. Adiciona alt text a todas as imagens que não o têm
  3. Verifica o contraste das cores principais usando o WebAIM Contrast Checker
  4. Garante que os formulários têm etiquetas visíveis
  5. Testa a navegação por teclado — consegues usar o site completamente sem rato?

Se o site foi desenvolvido com código limpo e moderno desde o início, grande parte destes problemas não existe. Sites construídos com geradores visuais de arrastar-e-largar têm frequentemente mais problemas de acessibilidade no código base.

Ver também: o calendário legal para sites e lojas online 2026–2027 e o guia da Lei da Acessibilidade 2026, que cobre o DL 82/2022 aplicável às empresas privadas.